The Boy Who Harnessed the Wind (2019)

Me decidi a escrever resenhas sobre o que ando lendo ou assistindo. Como um exercício de melhorar não apenas meu olhar crítico, como minha habilidade de comunicação e… de fazer conexões entre saberes e leituras. Não sinto que será uma tarefa trivial, contudo, também não começarei querendo ser genial. Vamos… devagar.

Isso posto, as primeiras coisas que aparecem em meu prato após me fazer tal proposta são… o romance Beloved (em português, Amada), de Toni Morrison, e o filme The Boy Who Harnessed The Wind (2019. No Brasil: O Garoto que Descobriu O Vento). Pesadões.

Mas o livro ainda está no comecinho, enquanto o filme… Ainda que deixe marcas duradouras, já foi assistido. E assim se dá a escolha. The Boy… é baseado em um livro de mesmo nome, e ambos são inspirados na história real de William Kamkwamba, à época da narrativa um adolescente malawiano que, com sua família e sua comunidade, enfrenta a pobreza e a fome trazidas pelas intempéries e por governos que ouvem mais a órgãos internacionais do que ao clamor de seu próprio povo.

Enquanto sente a situação piorar paulatinamente enquanto a família e o país entram em uma crise de falta de grãos e fome, o garoto tenta encontrar seu lugar, como contribuir, como ajudar a enfrentar forças que parecem tão maiores do que eles. Graças à visão de sua mãe e seu pai, tanto William quanto a irmã Annie têm a oportunidade de ir para a escola. O menino, por menos tempo, mas o suficiente para entender que talvez perseverança, força do grupo e ciências possam lhes dar segurança alimentar, e, com isso, energia para prosseguir.

William, observando, lendo, enfrentando as limitações e injustiças que o dinheiro impõe como pode, aprende como um dínamo funciona, e como com ele pode usar a força do vento para gerar energia elétrica. Vasculhando o lixo eletrônico que é largado a céu aberto nas proximidades de onde mora, ele já havia encontrado baterias de carro, uma bomba elétrica, entre outras peças abandonadas para serem reutilizadas ou esquecidas.

Com isso, após parecer que perdeu quase tudo, finalmente consegue, com o apoio da mãe, convencer seu pai a ajudá-lo. Com o pai, vem um suporte mais engajado da comunidade, e todos constrõem um moinho de vento que, com o dînamo e a bateria de carro, acionam a bomba d’água para puxar água do poço e irrigar uma plantação que parecia perdida após a inundações do ano, e lhes permitirá ter comida o ano todo, não apenas quando chove ou o governo ajuda (e não apenas uma colheita por ano).

William, que havia sido expulso da escola por ter tentando estudar sem poder pagar, ganha uma bolsa para estudar na cidade, segue estudando, e chega a conquistar um diploma nos Estados Unidos. Ele constrói outros moinhos para ajudar sua família e o povoado, e escreve um livro com sua história.

E a história dói, porque nossa História dói. Porque a mesquinhez de nosso mundo dói, e ver pessoas brigando por comida, escolhendo qual será a única refeição do dia, ou ficando à mercê dos que têm tanto (ou tudo), ao ponto de começarem a perder a si mesmas… tudo isso é devastador. Ou deveria ser. E ainda assim o filme é bonito. Com belas e boas atuações, com uma fotografia muito bela, que é um respiro para a dor, ou que nos lembra que, não, não há apenas miséria e sofrimento em momentos de miséria e sofrimento. E nos diz para não reduzirmos um lugar tão vulnerável a apenas suas mazelas: sempre há mais. Felizmente.

The Boy Who Harnessed The Wind, obviamente, me fez chorar. É um filme dirigido (diretor: Chiwetel Ejiofor) e atuado por pessoas negras. Não lembro de qualquer ator ou personagem branco. E, ainda assim, me fez querer me esconder debaixo da cama, me fez sentir muitas vergonhas. Porque há traços e pegadas e fantasmas das atuações das instituições europeias, ricas, imperialistas em muito do que se passa. E isso dá raiva, mas dá desespero. Me faz flertar com uma vontade que muitas vezes volta, de desistir, porque esse mundo é escroto demais. Porém ele está é dizendo o contrário – não posso desistir, ou me acomodar, entre tantos confortos. Não posso me dar ao luxo de achar que a vida é uma merda e não há soluções, quando… há tantos recursos.

Que haja raiva, e dor, pois sim. Mas que isso seja usado como combustível e movimento para seguir agindo. Caminhando. Rexistindo

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