O Rap Global de Boaventura de Sousa Santos (dez 2019)

/* Como disse que meu post anterior, no qual publiquei um ensaio sobre Kindred, da Octavia Butler, decidi compartilhar alguns trabalhos que fiz que acho decentes o suficiente para serem úteis para outras pessoas. Eis o segundo, talvez o último que aparecerá por aqui em muito tempo. É minha “análise” sobre Rap Global, um livro de rapoesia lançado no Brasil em 2010. Foi o trabalho final da matéria de métodos e técnicas de pesquisa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, aqui em Portugal. São umas 7 páginas. Postei de cara o resumo, pra você decidir se quer se aventuras pelo resto. Senta que lá vem história… */

Rap Global é um livro de “rapoesia” escrito por Boaventura de Sousa Santos sob o heterônimo Queni N.S.L. Oeste. O trabalho traz, de certo modo consoante com a tradição de outros escritores portugueses, um texto que pode ser lido como um único poema, ao longo de suas quase 100 páginas. Seguindo a epistemologia que defende, Santos-Queni traz em seu primeiro livro de rap um redemoinho de referências que extrapolam o “Norte Global”, o erudito, e coloca lado a lado clássicos do cânone europeu com nomes e expressões culturais do Sul Global. Em um tom que é muitas vezes mais de grito que de diálogo, o autor questiona instituições ocidentais, valores, preconceitos, explorações, mas também aponta uma apatia que nos imobiliza, atônitos a encarar o passado ou a tentar entender nosso lugar no presente, sem sabermos ser sujeitos nesta cacofonia moderna que o livro também representa. Rap Global, até o momento, teve pouca repercussão, mas Santos tem feito mais incursões no rap, seja declamando rapoesias em saraus de rua, seja incentivando ou fazendo parcerias com rappers para que seus textos e temáticas sejam discutidos ou musicados no estilo – como ocorre no Rap da Linha Abissal, de Renan Inquérito (2017).

Palavras-chave: Rap; Rapoesia; Sul Global; Norte Global; Epistemologias do Sul.

(more…)

Kindred, by Octavia Butler (1979)

/** So, last year I wrote this essay for one of my uni subjects – I miss that course. 😦 And these days I was checking this blog, with all the dust and cob webs, and decided to add this and another essay here. Because they’re decent enough to be shared, I believe. Enjoy 😛 Beware, they’re a few pages long, so I’ll probably add just the beginning and attach a pdf. wonders… */

Kindred, written by Octavia Butler, is a first person narrative where a modern day African American writer unwillingly travels back in time to find herself amidst the realities of a southern plantation, circa 1815. Emancipation and other liberation laws will only happen almost 50 years later.

The novel opens with “I lost an arm on my last trip home. My left arm.” This is the first information the reader receives, in the Prologue, along which we don’t get to know much else about what happened; who is the person telling that; nor with whom is that character protagonist speaking. With that, Butler manages to put us in a state of confusion, trying to put together whatever pieces of information show up, in these first pages. This reminds me of what Toni Morrison explains was her goal with Beloved (1987), in its Foreword:

[…] there would be no “introduction” […] into the novel. I wanted the reader to be kidnapped, thrown ruthlessly into an alien environment as the first step into a shared experience with the books population – just as the characters were snatched from one place to another, from any place to any other, without preparation or defense. (MORRISON, 1987. Foreword)

And Kindred in itself does that not only to the reader, but as well and all over again with Edana, the protagonist and the subject to untimely, unwanted, unwarned time travels to a plantation in the Antebellum South.

(more…)

The Boy Who Harnessed the Wind (2019)

Me decidi a escrever resenhas sobre o que ando lendo ou assistindo. Como um exercício de melhorar não apenas meu olhar crítico, como minha habilidade de comunicação e… de fazer conexões entre saberes e leituras. Não sinto que será uma tarefa trivial, contudo, também não começarei querendo ser genial. Vamos… devagar.

Isso posto, as primeiras coisas que aparecem em meu prato após me fazer tal proposta são… o romance Beloved (em português, Amada), de Toni Morrison, e o filme The Boy Who Harnessed The Wind (2019. No Brasil: O Garoto que Descobriu O Vento). Pesadões.

Mas o livro ainda está no comecinho, enquanto o filme… Ainda que deixe marcas duradouras, já foi assistido. E assim se dá a escolha. The Boy… é baseado em um livro de mesmo nome, e ambos são inspirados na história real de William Kamkwamba, à época da narrativa um adolescente malawiano que, com sua família e sua comunidade, enfrenta a pobreza e a fome trazidas pelas intempéries e por governos que ouvem mais a órgãos internacionais do que ao clamor de seu próprio povo.

Enquanto sente a situação piorar paulatinamente enquanto a família e o país entram em uma crise de falta de grãos e fome, o garoto tenta encontrar seu lugar, como contribuir, como ajudar a enfrentar forças que parecem tão maiores do que eles. Graças à visão de sua mãe e seu pai, tanto William quanto a irmã Annie têm a oportunidade de ir para a escola. O menino, por menos tempo, mas o suficiente para entender que talvez perseverança, força do grupo e ciências possam lhes dar segurança alimentar, e, com isso, energia para prosseguir.

William, observando, lendo, enfrentando as limitações e injustiças que o dinheiro impõe como pode, aprende como um dínamo funciona, e como com ele pode usar a força do vento para gerar energia elétrica. Vasculhando o lixo eletrônico que é largado a céu aberto nas proximidades de onde mora, ele já havia encontrado baterias de carro, uma bomba elétrica, entre outras peças abandonadas para serem reutilizadas ou esquecidas.

Com isso, após parecer que perdeu quase tudo, finalmente consegue, com o apoio da mãe, convencer seu pai a ajudá-lo. Com o pai, vem um suporte mais engajado da comunidade, e todos constrõem um moinho de vento que, com o dînamo e a bateria de carro, acionam a bomba d’água para puxar água do poço e irrigar uma plantação que parecia perdida após a inundações do ano, e lhes permitirá ter comida o ano todo, não apenas quando chove ou o governo ajuda (e não apenas uma colheita por ano).

William, que havia sido expulso da escola por ter tentando estudar sem poder pagar, ganha uma bolsa para estudar na cidade, segue estudando, e chega a conquistar um diploma nos Estados Unidos. Ele constrói outros moinhos para ajudar sua família e o povoado, e escreve um livro com sua história.

E a história dói, porque nossa História dói. Porque a mesquinhez de nosso mundo dói, e ver pessoas brigando por comida, escolhendo qual será a única refeição do dia, ou ficando à mercê dos que têm tanto (ou tudo), ao ponto de começarem a perder a si mesmas… tudo isso é devastador. Ou deveria ser. E ainda assim o filme é bonito. Com belas e boas atuações, com uma fotografia muito bela, que é um respiro para a dor, ou que nos lembra que, não, não há apenas miséria e sofrimento em momentos de miséria e sofrimento. E nos diz para não reduzirmos um lugar tão vulnerável a apenas suas mazelas: sempre há mais. Felizmente.

The Boy Who Harnessed The Wind, obviamente, me fez chorar. É um filme dirigido (diretor: Chiwetel Ejiofor) e atuado por pessoas negras. Não lembro de qualquer ator ou personagem branco. E, ainda assim, me fez querer me esconder debaixo da cama, me fez sentir muitas vergonhas. Porque há traços e pegadas e fantasmas das atuações das instituições europeias, ricas, imperialistas em muito do que se passa. E isso dá raiva, mas dá desespero. Me faz flertar com uma vontade que muitas vezes volta, de desistir, porque esse mundo é escroto demais. Porém ele está é dizendo o contrário – não posso desistir, ou me acomodar, entre tantos confortos. Não posso me dar ao luxo de achar que a vida é uma merda e não há soluções, quando… há tantos recursos.

Que haja raiva, e dor, pois sim. Mas que isso seja usado como combustível e movimento para seguir agindo. Caminhando. Rexistindo

Rap Global e Boaventura de Sousa Santos

Estou tentando aproveitar os resultados das pesquisas feitas para trabalhos de faculdade, para que os bons achados não se percam uma vez que a matéria esteja acabada. Pois bem, para a última nota do semestre na disciplina de Literatura Portuguesa e Imaginário Brasileiro, pesquisei, junto com Daniel Ribeiro, sobre Boaventura de Sousa Santos, especificamente no contexto do livro Rap Global (Rio de Janeiro: Aeroplano, 2010, 96 pp.).

Há uns quantos vídeos interessantes no YouTube com o próprio autor ou rappers que compuseram músicas provocados por ele. Cá vão os que encontramos, e gostei, gostamos:

 

 

Tentarei melhorar estes posts. Por hora, como o tempo ruge, é isso…