Um exemplo de vaga para UX Writer

Parte da descrição de uma oferta de empreto para ux writer, em uma empresa que oferece soluções de comércio eletrônico, conforme postada no Glassdoor:

As Principal UX Writer, you will be introducing the importance of the word into our approach to developing simple, understandable experiences for our merchants. As a creative problem solver, we expect you to make the technical feel human and authentic, to use language that is compelling, concise and friendly, and that weaves a coherent narrative through all interactions with our digital products.

You will be responsible for setting up the UX writing practice through best practices, holding workshops, and defining processes for integrating UX copy development during early design iterations. You will help shape the overall merchant experience and be an integral part of the product, design and research teams.

Specific responsibilities will include

  • Write UX copy across the merchant journey with a focus on the product experience (sign up, the mobile app, the web dashboard)
  • Collaborating with marketing content, support and other content creation teams to ensure coherent experiences and tone of voice of different touch points
  • Create a catalog of UX terms and phrases
  • Defining and maintaining writing processes, language standards and interaction patterns to drive consistency in our experiences
  • Driving UX content strategy, content creation and best practices that are essential in helping merchants complete transactions
  • Collaborating with cross-functional teams to bring copy and tone of voice to the heart of our UX practice
  • Articulating your content decisions to stakeholders, peers and executives
  • Engaging with the big picture while delivering hands-on results on a variety of products and features, for different teams
  • Applying language that is compelling, concise, and friendly – on brand but with a human, natural touch
  • Leveraging data and analytics to identify opportunities for improving the merchant experience
  • Optimizing UI text throughout our web and app experiences to increase engagement and conversion through A/B and user testing
  • Coaching and supporting colleagues in UX writing best practice, advocating for it both within the UX team and throughout the company

Útil para entender o que é importante saber, o que esperar do dia a dia e exigências de trabalho…

YIL (ontem eu aprendi – yesterday I learned): UX writing

Ontem me deparei com uma expertise que não conhecia. Ao menos, não com este nome. UX Writing. Tentei buscar como estão chamando tal posição em português, mas me parece que está difundido assim, mesmo.

Se você já ouviu falar em copy writing, vai perceber algumas semelhanças com esta “nova” área. Uma pessoa que trabalha com copy writing é responsável por fazer a comunicação com os clientes/usuários ser mais eficiente, apelativa, atraente. É muito comum seu uso para e-mails de “conversão” (para angariar clientes), páginas iniciais e de apresentação de produtos… É algo que fica entre a publicidade e o design, no meu entendimento.

UX Writing é levar o conceito de copy writing para os produtos em si. Há dois focos básicos: microcopy e macrocopy. No primeiro, tratam-se aspectos como textos em botões, notificações, mensagens de erro. O segundo abrange textos em e-mails de confirmação, instruções e coisas do gênero.

Uma imagem com um exemplo de como ux writing ajuda a melhorar a experiência do usuário. As duas telas mostram a mesma interface, em termos de uso de cores, fontes – família e tamanho, posicionamento de elementos, botão etc. O que muda entre as duas? O conteúdo das mensagens. Além de haver menos texto, na tela da direita temos uma comunicação menos técnica, mais amigável e ainda assim informativa. Mudanças assim resultam em menos esforço para o utilizador, cognitivamente, para interpretar o que é dito, e em termos de tempo. No todo, a sensação, ainda que não racionalmente interpretada, é de uma interação mais agradável:

Mesma interface para o usuário, microcopy diferente.
Fonte: How UX writing can help create good design – https://usabilitygeek.com/how-ux-writing-can-help-create-good-design/

É por isso que a área está ganhando mais destaque, e grandes empresas estão buscando mais pessoas capazes de atuar bem em tais funções. Quando há uma enxurrada de produtos similares entre os quais escolher, pequenos detalhes podem ganhar um novo usuário, deixá-lo mais feliz, ou fazê-lo ficar por mais tempo no seu produto.

Esta descoberta foi muito interessante para mim, porque desde minha gradução em Sistemas de Informação, vinda já de um longo histórico de gostar de ler, escrever e contar histórias, a parte de interação e interface me cativou. Além disso, eu já havia inclusive tentado vestibular para a área de design, contudo, a falta de treinamento na área de desenho em si não me favoreceu, naquele momento.

Na medida em que avancei com os trabalhos de faculdade, ou no Vitrine Inversa, startup que nós os Startupolitanos do CrossJoin tentamos fazer dar certo, a parte de copy writing e buscar entender como comunicar com usuários – seja através de entrevistas, seja na interface mesmo de nossa plataforma – sempre foi onde estive envolvida mais diretamente.

Até mesmo meu trabalho de conclusão de curso (Inspeção e Evolução da Usabilidade de Buscadores Tipo Diretório: Estudo de Caso com o fazDelivery) envolveu em alguma medida esse tipo de ação, embora tenha abrangido a interface de usuário como um todo.

De modo que reencontrar essa área, agora com um enfoque que casa ainda mais a questão da interface com a escrita, o design com os textos… É como encontrar mais um lugar onde eu posso funcionar, onde minhas habilidades e experiências fazem sentido.

Há uns quantos cursos online ou remotos para quem quer entrar ou se aprofundar na área.

Vou começar com os gratuitos (a UX writing hub oferece módulos iniciais de graça), para me aprofundar nos conceitos, e farei mais um post com uma visão mais ampla do que é importante saber e entender, para atuar como ux writer.

Cursos que encontrei:

UX Writing Fundamentals, pelo UX Writers Collective, entre 8 a 10 semanas, online. 895 dólares.

UX Writing Foudantions, pela EDIT. Dezesseis horas de curso em dois fins de semana de setembro (19 e 20, 26 e 27). 165 euros ou 890 reais. Em português, acredito.

UX Writing Essentials, do UX Writing HUB. Curso em vídeos sem duração especificada. “50 dólares” (em teoria, era 500 e está com um desconto de 90%).

Fontes extras e materiais de leitura:

Lesley Vos: How UX writing can help create good design.

Mockup Plus: The Complete Guide of Building Better Products With UX Writing.

Secret Stache: 7 Best Practices for Practical (and actionable) UX Writing.

Etapas para um (ante)projeto

Há já uns quantos anos atrás, este blog começou como um diário de pesquisa, quando eu estava concluindo meu bacharelado em Sistemas de Informação, pela UNEB. Sete ou oito anos depois, apesar de toda a resistência interna que sinto sempre que penso em me dedicar sozinha a alguma pesquisa ou projeto de mais longo prazo, cá estou eu, tentando utilizá-lo para consolidar alguns (re)entendimentos sobre o processo de escrever um projeto de pesquisa, sobre o fazer pesquisa em si, para tentar avançar em uma ideia/inquietação que tenho e a qual gostaria de investigar.

Este preâmbulo é, como sempre, uma reflexão pessoal, no meu estilo não objetivo de fazer as coisas, mas que, de algum modo, me ajuda a avançar. Ontem pedi ajuda a um amigo (Pablo Sotuyo Blanco), musicólogo e pessoa muito chata quando o assunto é pesquisa (no bom sentido, pois muito atento e detalhista), que tem muito apreço e domínio em metodologia(s) de pesquisa, para me orientar um pouco neste aspecto, pois sinto que tenho dificuldades com a questão. Quero, agora, tentar resumir minhas impressões sobre a conversa, como uma tentativa de consolidar o que foi explicado – e de lutar contra a ansiedade e autossabotagem, que tendem a me levar à procrastinação e estagnação.

A sugestão do querido amigo e professor, inicialmente, é (espero fazer jus e não fugir muito ao que ele de fato disse):

  • preciso ter uma pergunta principal que quero responder, aonde quero chegar – entendo que seja o meu problema de pesquisa. É ela quem leva ao meu objetivo principal;
  • para chegar ao objetivo geral e específicos: se não tiver certeza ou segurança de qual minha pergunta principal, posso fazer um toró de ideias (brainstorming, para quem preferir) e ir listando todas as perguntas que se relacionam com o que estou tentando descobrir ou entender. Depois, devo/posso observar:
    • quais se conectam e aproximam;
    • quais se excluem;
    • como se organizam;
    • qual a hierarquia entre elas: qual a “maior”? A maior dará origem ao meu problema de pesquisa e então meu objetivo geral;
  • a partir dessa pergunta maior, e do objetivo, posso desdobrar os objetivos específicos analisando quais passos terei de seguir para responder ou alcançar meu objetivo geral. Também posso ver todos os questionamentos que o objetivo geral levanta. Quanto melhor conseguir entender e responder a tais questionamentos, quanto mais completo for este escrutínio, mais sólido é o resultado da pesquisa;
  • tendo os objetivos e perguntas listados, devo questionar: eles requerem/se conectam a quais áreas de conhecimento? De cada área, emergirá uma teoria. De cada teoria, um método;
  • o levantamento das áreas e teorias me orienta para o que será minha revisão bibliográfica e a consequente fundamentação teórica do projeto;
  • os métodos levantados contribuem e apontam para a metodologia que será utilizada. É por isso que metodologia e fundamentação teórica estão “casadas”, em um projeto;
  • tendo as perguntas e objetivos, eu também devo ser capaz de fazer uma estimativa de qual esforço de pesquisa cada um exigirá, e quanto tempo – passos necessários para montar um cronograma, e analisar e definir escopo e viabilidade do projeto.

Para os métodos listados: – qual a base teórica deste método? Quais os passos? Evitar descrições superficiais.

No caso de você já ter uma intuição de como pode responder à pergunta/problema levantado, poderia “pular” a etapa de levantar as áreas e debruçar-se mais sobre a metodologia, contudo, sempre será necessário voltar e fazer o esforço da revisão, para embasar a metodologia utilizada e os porquês desta escolha.

É muito importante não assumir nada como ponto pacífico, e questionar tudo. Isto evita furos, inconsistências e retrabalhos.

Um exemplo parcial disso: pela natureza das perguntas que quero responder, acredito que será útil e importante utilizar entrevistas. Estas remetem à etnografia, método utilizado pela antropologia. Além disso, para tratar os dados levantados em minhas entrevistas, terei de trabalhar com conceitos de estatística. Assim, vai nascendo e se desenvolvendo o que será necessário abordar e estudar para fazer acontecer um projeto…

Naturalmente, há mais passos, embora com isso já seja possível avançar bastante – se levarmos em conta que podemos ir pesquisando, revisando materiais e escrevendo, na medida em que se prossegue nesse processo. Entretanto, por hora, foi aonde chegamos. E, para mim, já foi um bocado para digerir, e já representa BASTANTE trabalho…

O Rap Global de Boaventura de Sousa Santos (dez 2019)

/* Como disse que meu post anterior, no qual publiquei um ensaio sobre Kindred, da Octavia Butler, decidi compartilhar alguns trabalhos que fiz que acho decentes o suficiente para serem úteis para outras pessoas. Eis o segundo, talvez o último que aparecerá por aqui em muito tempo. É minha “análise” sobre Rap Global, um livro de rapoesia lançado no Brasil em 2010. Foi o trabalho final da matéria de métodos e técnicas de pesquisa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, aqui em Portugal. São umas 7 páginas. Postei de cara o resumo, pra você decidir se quer se aventuras pelo resto. Senta que lá vem história… */

Rap Global é um livro de “rapoesia” escrito por Boaventura de Sousa Santos sob o heterônimo Queni N.S.L. Oeste. O trabalho traz, de certo modo consoante com a tradição de outros escritores portugueses, um texto que pode ser lido como um único poema, ao longo de suas quase 100 páginas. Seguindo a epistemologia que defende, Santos-Queni traz em seu primeiro livro de rap um redemoinho de referências que extrapolam o “Norte Global”, o erudito, e coloca lado a lado clássicos do cânone europeu com nomes e expressões culturais do Sul Global. Em um tom que é muitas vezes mais de grito que de diálogo, o autor questiona instituições ocidentais, valores, preconceitos, explorações, mas também aponta uma apatia que nos imobiliza, atônitos a encarar o passado ou a tentar entender nosso lugar no presente, sem sabermos ser sujeitos nesta cacofonia moderna que o livro também representa. Rap Global, até o momento, teve pouca repercussão, mas Santos tem feito mais incursões no rap, seja declamando rapoesias em saraus de rua, seja incentivando ou fazendo parcerias com rappers para que seus textos e temáticas sejam discutidos ou musicados no estilo – como ocorre no Rap da Linha Abissal, de Renan Inquérito (2017).

Palavras-chave: Rap; Rapoesia; Sul Global; Norte Global; Epistemologias do Sul.

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Kindred, by Octavia Butler (1979)

/** So, last year I wrote this essay for one of my uni subjects – I miss that course. 😦 And these days I was checking this blog, with all the dust and cob webs, and decided to add this and another essay here. Because they’re decent enough to be shared, I believe. Enjoy 😛 Beware, they’re a few pages long, so I’ll probably add just the beginning and attach a pdf. wonders… */

Kindred, written by Octavia Butler, is a first person narrative where a modern day African American writer unwillingly travels back in time to find herself amidst the realities of a southern plantation, circa 1815. Emancipation and other liberation laws will only happen almost 50 years later.

The novel opens with “I lost an arm on my last trip home. My left arm.” This is the first information the reader receives, in the Prologue, along which we don’t get to know much else about what happened; who is the person telling that; nor with whom is that character protagonist speaking. With that, Butler manages to put us in a state of confusion, trying to put together whatever pieces of information show up, in these first pages. This reminds me of what Toni Morrison explains was her goal with Beloved (1987), in its Foreword:

[…] there would be no “introduction” […] into the novel. I wanted the reader to be kidnapped, thrown ruthlessly into an alien environment as the first step into a shared experience with the books population – just as the characters were snatched from one place to another, from any place to any other, without preparation or defense. (MORRISON, 1987. Foreword)

And Kindred in itself does that not only to the reader, but as well and all over again with Edana, the protagonist and the subject to untimely, unwanted, unwarned time travels to a plantation in the Antebellum South.

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Sinopse: Green Book (2018)

“Green Book”, no Brasil, “Green Book: o Guia” é uma “comédia dramática” de 2018 dirigida por Peter Farrelly com roteiro de Peter Farrelly, Nick Vallelonga e Brian Currie. Inspirada em personagens reais, a narrativa que recebeu o Oscar de Melhor Filme (2019) acompanha a história de Tony Lip Vallelonga (Viggo Mortensen), um faz tudo e leão-de-chácara de origem italiana, malandro e racista, crescido no Bronx. Sempre em busca de melhores conexões e contatos, Tony arma uma uma confusão que faz com que a casa noturna em que trabalha seja “fechada para reformas”.

Em dificuldades financeiras, ele acaba arranjando emprego como motorista de “Doc” Don Shirley (Mahershala Ali), um renomado pianista e compositor de jazz e música clássica. Acontece que Don Shirley é negro, e Lip está sendo contratado para conduzi-lo por 8 semanas em uma turnê pelo sul dos Estados Unidos nos anos de 1960, quando a política de apartheid ainda era oficialmente aceita e reconhecida, lá.

O longa então nos mostra, em geral acompanhando o ponto de vista de Vallelonga, as dificuldades, aprendizados e soluções encontradas e enfrentadas por ambos no decorrer dessa jornada, tanto entre as duas personagens, quanto no cada vez mais frio e distante sul segregacionista, irascível, contraditório, cruel. Ao final, ambos se tornam amigos.

/** Uma sinopse curta e mais direta, para um podcast do Abelhudes sobre o filme. Mas não deixa de ser um exercício, afinal… **/

Edit: estava ouvindo Nina Simone hoje e, lembrando que também ela tinha querido ser uma pianista clássica, fui pesquisar se ela e Dr. Shirley havia se conhecido e qual sua conexão. Encontrei um artigo muito bom sobre “O verdadeiro Dr. Shirley”, que fala sobre ele e traz muitas críticas da família ao filme hollywoodiano. Recomendo, apesar de ser longuinho: How ‘Green Book’ And The Hollywood Machine Swallowed Donald Shirley Whole -> https://shadowandact.com/the-real-donald-shirley-green-book-hollywood-swallowed-whole.

The Boy Who Harnessed the Wind (2019)

Me decidi a escrever resenhas sobre o que ando lendo ou assistindo. Como um exercício de melhorar não apenas meu olhar crítico, como minha habilidade de comunicação e… de fazer conexões entre saberes e leituras. Não sinto que será uma tarefa trivial, contudo, também não começarei querendo ser genial. Vamos… devagar.

Isso posto, as primeiras coisas que aparecem em meu prato após me fazer tal proposta são… o romance Beloved (em português, Amada), de Toni Morrison, e o filme The Boy Who Harnessed The Wind (2019. No Brasil: O Garoto que Descobriu O Vento). Pesadões.

Mas o livro ainda está no comecinho, enquanto o filme… Ainda que deixe marcas duradouras, já foi assistido. E assim se dá a escolha. The Boy… é baseado em um livro de mesmo nome, e ambos são inspirados na história real de William Kamkwamba, à época da narrativa um adolescente malawiano que, com sua família e sua comunidade, enfrenta a pobreza e a fome trazidas pelas intempéries e por governos que ouvem mais a órgãos internacionais do que ao clamor de seu próprio povo.

Enquanto sente a situação piorar paulatinamente enquanto a família e o país entram em uma crise de falta de grãos e fome, o garoto tenta encontrar seu lugar, como contribuir, como ajudar a enfrentar forças que parecem tão maiores do que eles. Graças à visão de sua mãe e seu pai, tanto William quanto a irmã Annie têm a oportunidade de ir para a escola. O menino, por menos tempo, mas o suficiente para entender que talvez perseverança, força do grupo e ciências possam lhes dar segurança alimentar, e, com isso, energia para prosseguir.

William, observando, lendo, enfrentando as limitações e injustiças que o dinheiro impõe como pode, aprende como um dínamo funciona, e como com ele pode usar a força do vento para gerar energia elétrica. Vasculhando o lixo eletrônico que é largado a céu aberto nas proximidades de onde mora, ele já havia encontrado baterias de carro, uma bomba elétrica, entre outras peças abandonadas para serem reutilizadas ou esquecidas.

Com isso, após parecer que perdeu quase tudo, finalmente consegue, com o apoio da mãe, convencer seu pai a ajudá-lo. Com o pai, vem um suporte mais engajado da comunidade, e todos constrõem um moinho de vento que, com o dînamo e a bateria de carro, acionam a bomba d’água para puxar água do poço e irrigar uma plantação que parecia perdida após a inundações do ano, e lhes permitirá ter comida o ano todo, não apenas quando chove ou o governo ajuda (e não apenas uma colheita por ano).

William, que havia sido expulso da escola por ter tentando estudar sem poder pagar, ganha uma bolsa para estudar na cidade, segue estudando, e chega a conquistar um diploma nos Estados Unidos. Ele constrói outros moinhos para ajudar sua família e o povoado, e escreve um livro com sua história.

E a história dói, porque nossa História dói. Porque a mesquinhez de nosso mundo dói, e ver pessoas brigando por comida, escolhendo qual será a única refeição do dia, ou ficando à mercê dos que têm tanto (ou tudo), ao ponto de começarem a perder a si mesmas… tudo isso é devastador. Ou deveria ser. E ainda assim o filme é bonito. Com belas e boas atuações, com uma fotografia muito bela, que é um respiro para a dor, ou que nos lembra que, não, não há apenas miséria e sofrimento em momentos de miséria e sofrimento. E nos diz para não reduzirmos um lugar tão vulnerável a apenas suas mazelas: sempre há mais. Felizmente.

The Boy Who Harnessed The Wind, obviamente, me fez chorar. É um filme dirigido (diretor: Chiwetel Ejiofor) e atuado por pessoas negras. Não lembro de qualquer ator ou personagem branco. E, ainda assim, me fez querer me esconder debaixo da cama, me fez sentir muitas vergonhas. Porque há traços e pegadas e fantasmas das atuações das instituições europeias, ricas, imperialistas em muito do que se passa. E isso dá raiva, mas dá desespero. Me faz flertar com uma vontade que muitas vezes volta, de desistir, porque esse mundo é escroto demais. Porém ele está é dizendo o contrário – não posso desistir, ou me acomodar, entre tantos confortos. Não posso me dar ao luxo de achar que a vida é uma merda e não há soluções, quando… há tantos recursos.

Que haja raiva, e dor, pois sim. Mas que isso seja usado como combustível e movimento para seguir agindo. Caminhando. Rexistindo

Rap Global e Boaventura de Sousa Santos

Estou tentando aproveitar os resultados das pesquisas feitas para trabalhos de faculdade, para que os bons achados não se percam uma vez que a matéria esteja acabada. Pois bem, para a última nota do semestre na disciplina de Literatura Portuguesa e Imaginário Brasileiro, pesquisei, junto com Daniel Ribeiro, sobre Boaventura de Sousa Santos, especificamente no contexto do livro Rap Global (Rio de Janeiro: Aeroplano, 2010, 96 pp.).

Há uns quantos vídeos interessantes no YouTube com o próprio autor ou rappers que compuseram músicas provocados por ele. Cá vão os que encontramos, e gostei, gostamos:

 

 

Tentarei melhorar estes posts. Por hora, como o tempo ruge, é isso…

De desconstruções e instantes

Neste semestre da faculdade, nas aulas de tradução, a segunda avaliação que fiz foi para traduzir um poema atribuído a Acolmiztli Nezahualcoyotl, asteca pré-colombiano. Segue a versão que foi trabalhada na prova:

Truly do we live on Earth?
Not forever on Earth; only a little while here.
Although it be jade, it will be broken.
Although it be gold, it is crushed.
Although it be quetzal feather, it is torn asunder.
Not forever on Earth; only a little while here.

Acrescento à lista a tradução que fiz para a prova, guardadas as ressalvas de que era não nos foi dada contextualização do texto além do nome do autor, e a tradução foi feita em um ambiente no qual não podíamos fazer pesquisas acerca do texto, nem acessar dicionários variados, além de termos, claro, a limitação do tempo – muitos dirão desculpas, desculpas”. Bem, em alguma medida, sim xD

 

Vivemos nós verdadeiramente na Terra?
Não para sempre na Terra; aqui breves momentos, apenas.
Ainda que jade seja, será quebrado.
Ainda que ouro seja, é esmagado.
Ainda que a pluma do quetzal seja, é despedaçada.
Não para sempre na Terra; aqui breves momentos, apenas.

Quetzal

A ave quetzal vista voando na Guatemala, por fotógrafo cujo nome não resgatei ‘-‘

Acontece que este poema, que até onde consegui entender, era na verdade parte de um canto asteca (não li se sagrada, religioso, ou apenas de exaltação para os nobres da época), foi escrito em nahuatl, ou, aportuguesando, nauátle. E o que tem isto? Bem… esta é uma língua de escrita pictórica, então o modo de interpretar/traduzir algo é… enfim, inegavelmente, uma questão de interpretação, já que desenhos podem ser mais facilmente entendidos como uma nuvem de conceitos do que palavras.

A questão da dificuldade de traduzir poemas, a curiosidade com como seria ele escrito em sua “”língua original”” me fizeram hoje ir atrás de ver um pouco mais, até para tentar entender “discrepâncias de versões” que encontrei no inglês. Decidi compilar aqui o resultado, porque… Achei divertida a coisa, e quero quem sabe prosseguir nisto, em algum momento. Ao final do post listei as principais referências para as versões aqui listadas.

Durante a pesquisa, encontrei detalhes que me chamaram a atenção, e extrapolam talvez o nível do poema: o que me parecem ser adaptações (por exemplo, em um dos textos em espanhol, não temos a menção ao pássaro quetzal); na transcrição do nahuatl desta mesma versão, aparece um etcetera que não sei dizer se foi um erro de digitação, fruto do tédio ou erro de software de captura de imagem/texto. Acho que também encontrei umas adaptações de escrita das palavras, não apenas de semântica/ objetos.

Enfim, fica aqui salvo o resultado deste ímpeto de pesquisa madrugada adentro. Espero voltar a ele em algum momento, no mínimo para mostrar aqui o que me chamou a atenção entre as versões; e para tentar resgatar uma versão em nahuatl pictórico, não transcrito…

Yo lo Pregunto¹

Yo Nezahualcóyotl lo pregunto:
¿Acaso de veras se vive con raíz en la tierra?
Nada es para siempre en la tierra:
Sólo un poco aquí.
Aunque sea de jade se quiebra,
Aunque sea de oro se rompe,
Aunque sea plumaje de quetzal se desgarra.
No para siempre en la tierra:
Sólo un poco aquí.


 

Pensamiento²

¿Es que en verdad se vive aquí en la tierra?
!No para siempre aquí!
Un momento en la tierra,
si es de jade se hace astillas,
si es de oro se destruye,
si es plumaje de ketzalli se rasga,!No para siempre aquí!
Un momento en la tierra.


Truly do we live on earth?³

Not forever on earth; only a little while here.
Although it be jade, it will be broken,
Although it be gold, it is crushed,
Although it be quetzal feather, it is torn asunder.
Not forever on earth; only a little while here.


 

No para siempre en la tierra,⁴
sólo un poco aquí.
Aunque sea jade se quiebra,
aunque sea metal precioso se hace pedazos,
la pluma preciosa se rasga.
No para siempre en la tierra,
sólo un poco aquí.


Annochipa tlalticpac. Zan achica ye nican. Ohuaye ohuaye. Tel ca chalchihuitl no xamani, no teocuitlatl in tlapani, no quetzalli poztequi. Yahui ohuaye. Anochipa tlalticpac zan achica ye nican. Ohuaya ohuaya.⁵


Not forever on earth, only a brief time here! Even jades fracture; even gold ruptures, even quetzal plumes tear: Not forever on earth: only a brief time here! Ohuaya, ohuaya.⁵

 

Fontes dos textos (exceto o primeiro, pois não veio indicada, na prova):

¹ https://masdemx.com/2016/08/5-mejores-poemas-de-nezahualcoyotl/

² http://neomexicanismos.com/mexico-prehispanico/nezahualcoyotl-poemas-cortos-filosofia/

³ Aztec Thought and Culture: A Study of the Ancient Nahuatl Mind (acessado online em: https://books.google.com.br/)

http://www.historicas.unam.mx/publicaciones/publicadigital/libros/cantares/cm02/23_xx_aqui%20empiezan%20los%20cantos.pdf

http://www.famsi.org/research/curl/nezahualcoyotl2.html

Extra:

Onde também encontrei versões deste e de outros cantos de Nezahualcoyotl, traduzidas para o inglês por John Curl: http://www.red-coral.net/Hungry.html

Das (im)possibilidades da leitura

Anotações meio soltas, enquanto estudo o capítulo O Leitor, do livro O Demônio da Teoria, de Antoine Compagnon…

  • Textos acadêmicos
  • interpretações
  • significados que escorrem, não grudam
  • quando estamos prontos?
  • multiplicidade de significados de cada palavra, e de cada sintaxe
  • Estação Atocha no meio disso tudo
  • pacto de leitura – retomada de conceitos vistos em na oficina de produção de textos…?

“[…] a obra literária tem dois pólos, […] o artístico e o estético: o pólo artístico é o texto do autor e o pólo estético é a realização efetuada pelo leitor. Considerando esta polaridade, é claro que a própria obra não pode ser idêntica ao texto nem à sua concretização, mas deve situar-se em algum lugar entre os dois. Ela deve inevitavelmente ser de caráter virtual, pois ela não pode reduzir-se nem à realidade do texto nem à subjetividade do leitor, e é dessa virtualidade que ela deriva seu dinamismo. Como o leitor passa por diversos pontos de vista oferecidos pelo texto e relaciona suas diferentes visões e esquemas, ele põe a obra em moimento, e se põe ele próprio igualmente em movimento.” (Iser, Der Akt des Lesens, p. IX. apud Compagnon, Antoine – O Demônio da Teoria, p. 149)

Mas ocorre que este próprio comentário, por mais que nos seduza e ressoe em nós, também pressupõe estilos de leitura e de recepção, já.